sábado, 20 de outubro de 2012

Como a corrida mudou a vida a RUI PINHO


Que a corrida faz milagres , 

já sabíamos mas deixo aqui na primeira pessoa um testemunho

 fantástico

A história de 50 kgs 

Este texto foi prometido a uma amiga ainda em Agosto. Pedia-me que descrevesse as minhas motivações, o que me tinha levado à perca de peso que iniciei mais a sério há quatro anos, e quais as mudanças mais significativas nas minhas rotinas diárias. Engloba tudo isso.
Tendo por recorde 36 rissóis (de carne) numa só refeição aos 12 anos, quando estava de dieta por suspeita de apendicite (as desculpas que eu arranjava para ir para a enfermaria do seminário no Inverno…(Sim, eu andei num seminário)), alguns 30 Bollycaos (aquecidos com manteiga), depois de desafiado por alguns amigos numa noite de copos, aos 19/20, altura em que, quando os outros iam aos panados à Mobil (bomba de gasolina de uma marca já extinta, que ainda existe na Avenida dos Combatentes, ali para os lados das Antas) eu comia um, muitas vezes dois Dan Cakes de chocolate (sim daqueles de 400g), era certo e sabido que havia de chegar a obeso. Não foi logo, mas aos 25 anos, quando deixei de jogar futebol de 11 e passei exclusivamente ao Futsal, e que coincidiu com o fim dos treinos de ginásio, rapidamente os meus maus hábitos alimentares me levaram a aumentar de peso.
gordofutsal
(Futsal, esse desporto de sofá)
Foram em média 5 kg por ano. Parece pouco, mas em 10 anos, levou-me à estupidez de não poder baixar-me para apertar os cordões. Nunca me senti infeliz. Sou de riso e piada fácil, tenho por hábito andar bem disposto, a minha profissão implica contactos permanentes com muitas pessoas, em muitos lugares do País e de outros países, o que proporcionava sempre repastos fartos e completos, onde se ultimavam negócios ou se reconfortavam parcerias.
Um dia fui comprar um fato. Era grande. Mas os fatos são sempre grandes, nada de alarmante. Comprei umas calças. 60. Fui-me pesar e vejo 134 kg. Assustei-me.
Godo
(Sim, sou o da direita)
Assim, dificilmente não teria complicações de saúde em breve. A juntar a tudo isto era fumador. Tinha no tabaco um amigo, um companheiro de viagens, um reconfortante escape para o frio, para o calor, para a cerveja geladinha, para o copo de vinho, para tudo. Comecei então uma nova tentativa de dieta. Já tinha tentado algumas. Tinha havido uma altura em que ia para a piscina diariamente. Durante uns meses dediquei-me à natação. Fazia 60 piscinas de 25 mt na especialidade bruços. Emagreci, mas pouco. Veio a Primavera, a piscina era muito quente, um ambiente fechado, preferia o mar. Mas o mar era frio. Deixei e esqueci. Continuava o futsal. E voltei ao volume normal.
Um dia, vendo uma amiga emagrecer, perguntei-lhe o que fazia. Apresentou-me uma marca de batidos substitutos de refeição. Durante um ano fiz religiosamente a substituição do jantar por um batido. Perdi 8 kg. Ao fim de um ano deixei de fumar. Foi há 4 anos. Com medo de recuperar o peso perdido comecei a correr. Comprei equipamento adequado, e todos os dias corria 4 km, normalmente de madrugada, às vezes a altas horas da noite, sempre de maneira que não me vissem. Admiro as pessoas gordinhas que correm desavergonhadamente. Mas parecia-me melhor ter de correr tão lentamente com poucas testemunhas.
A corrida levou-me às escolhas acertadas dos alimentos. É inevitável. Quando começamos a correr, consultámos sites de corrida, compramos revistas, equipamento, chegámos a trocar impressões anonimamente em sites de corrida, e depois, inscreve-mo-nos em provas. Foi o que eu fiz um dia. Numa prova de 7 km. Fui, fiz a prova, fui desafiado por um amigo a fazer uma 1/2 maratona e treinei para ela. Achei-me um atleta depois de a concluir (ainda com mais de 115 kgs. Um ano depois fazia a minha primeira maratona, aí já a rondar os 100. Peso neste momento 85 kg, e já completei 5 maratonas de estrada e 6 ultras de montanha.
Desde o início deste ano que ando entre os 83 e os 87. Peso o mesmo que há 20 anos, mas com muito mais qualidade de vida. As loucuras à mesa moderei-as, o tabaco deixei-o definitivamente e o exercício físico tornou-se num saudável vício e num escape ao bulício do dia-a-dia. As minhas escolhas alimentares são as que me permitem ter mais saciedade, embora fure muitas vezes a dieta exemplar do atleta. E não sou caso único. Saber o que comer é fundamental, comer aquilo que nos dá prazer também. Só não o faço todos os dias, ou todas as semanas. Mas não abdico de uma francesinha de vez em quando, ou do bolo de bolacha da minha mãe (com creme de manteiga, perfeito), ou mesmo de um repasto típico português em ocasiões especiais. Evito os excessos mas não excluo alimentos. Os erros não passam de prémios. É tudo uma questão de equilíbrio.
A vida é equilíbrio. Eu encontrei o meu. E se eu, com um histórico tão “pesado” consegui, só não consegue quem não tentar e não quiser insistir. São muitos os momentos em que queremos desistir, as tentações são muitas, há sempre desculpas para não fazermos aquilo que sabemos ser o mais acertado. O fatídico “é só desta vez” é o erro mais comum e usual de quem quer e precisa de perder peso. Durante muito tempo evitei excessos e alimentos que eu sabai me iam atrasar o equilíbrio que me levaria ao peso minimamente aceitável para poder almejar o sonho de correr uma maratona. Durante o período de treinos menos intensos tenho o cuidado de compensar com muita atenção ao que como, fazendo uma contabilidade dos erros ao pormenor de não excederem as escolhas acertadas. Uma boa forma de os evitar é, quando os estamos quase a cometer, comer uma peça da fruta que mais gostamos, ou um punhado de frutos secos. Normalmente, a vontade de comer um doce é apenas uma indução do cérebro a mostrar-nos o caminho mais curto para acalmar a “fome”, o açúcar. Aprendendo a contornar este impulso, facilmente se perde algum peso. O resto é disciplina e exercício físico. O nosso corpo está tão bem feito, que sempre que o fazemos ficámos com um sorriso rasgado, por mais que soframos. A vida de hoje em dia é tão sedentária que é fundamental o exercício. O resto é a motivação de todos os que reparam na nossa perda de peso e nos vão dando injecções de motivação para não voltar atrás. Sempre com metas alcançáveis, sem desesperar e de preferência com acompanhamento por um profissional. E idealmente devemos publicitar a nossa luta, para sermos ajudados e incentivados pelos que nos rodeiam. Vamos ter tentações toda a vida e a principal é aquela altura em que achámos que já não voltámos atrás. Conheço imensos casos, espero não ser um. E desejo o mesmo a quem, como eu, se decidir a travar uma luta contra o peso.
Estarei sempre aqui para ajudar no que puder.
Obidos
(Foto Ultra Trail Nocturno Lagoa de Óbidos, Agosto 2012, 50 Km)
Daqui a umas horas chego aos 40 anos. Não podia ter escolhido melhor prenda. Saúde, vontade de continuar esta luta permanente e acima de tudo, gozar esta capacidade de me surpreender todos os dias, de poder suplantar sempre mais um obstáculo, de, como na corrida em que, quando estamos cansados nos limitamos a colocar um pé em frente ao outro, poder viver um dia de cada vez, sem a sensação de eternidade, mas com a consciência do fútil e do acessório em contraponto ao mais importante: Viver. E um obeso não vive, desespera por poder usufruir da vida que está para lá da comida. É um escravo da comida.
Obrigado a todos vós que me ajudam permanentemente neste caminho. Todos são determinantes e importantes para mim. Em todos encontro motivação para me suplantar. Em todas as vitórias, por pequenas que vos pareçam, e que sempre mas fazem sentir grandes, é um enorme passo na estabilidade desta forma de vida que desejo nunca abandonar. Não há dia que não recorde o meu eu que ficou para trás. Este de hoje é mais feliz, também graças a todos vós.
Obrigado! (texto publicado no blog http://tripasenortadas.blogspot.pt/)

2 comentários:

  1. Uma história real maravilhosa! Isto porque é um exemplo de força, coragem e determinação.
    Grande Rui Pinho!

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